Sábado, 03 Junho 2017 11:49

Poderia a Naltrexona em baixas dosagens auxiliar na abstinência provocada pelos produtos de trigo? Destaque

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Nesses anos todos que venho retirando pão e outros produtos de trigo da dieta de centenas de pacientes, eu me perguntava o por quê deles serem tão viciantes? Mesmo percebendo o benefício obtido desta exclusão, o que acabava acontecendo é que os pacientes, no final das contas, estavam até comendo-os ainda mais do que gostariam.

 

Depois de muito pesquisar, descobri que existem compostos no glúten, chamados de gluteomorfinas, que são semelhantes em estrutura à morfina e que afetam o corpo da mesma maneira que essa poderosa e viciante droga!

A gluteomorfinas, também conhecidas como gliadomorfinas, são compostos peptídicos do tipo opióide que se comportam tal qual a morfina no cérebro. Elas são subprodutos intermediários do metabolismo do glúten que podem criar sentimentos de euforia. As gluteomorfinas podem ser viciantes e até desencadearem reações fortes de abstinência em algumas pessoas, quando o glúten é removido da dieta.

Até recentemente, acreditava-se que o glúten era a principal proteína responsável por desencadear uma resposta imune no corpo, mas agora sabemos que a gliadina é, na verdade, o principal culpado. Porém, pelo fato de que a maioria das pessoas está familiarizada com o glúten, essa terminologia continua a ser utilizada. Além disso, sabe-se agora que não se trata de apenas uma única proteína no trigo que causa reações nas pessoas. Na verdade, mais de 100 proteínas foram identificadas que podem causar uma resposta imune.

As gluteomorfinas resultam da digestão incompleta da proteína do glúten. Esta habilidade prejudicada para digerir completamente o glúten é causada por níveis inadequados de uma enzima que quebra os peptídeos da gluteomorfina em peptídeos menores. Esta enzima é chamada de dipeptil-peptidase IV, ou DPP IV. A DPP IV catalisa peptídeos que possuem o aminoácido prolina na segunda posição.

A gliadorfina é um peptídeo com sete aminoácidos de comprimento na sequência [tyr-pro-gln-pro-gln-pro-phe]. A DPP IV atua em duas etapas diferentes do metabolismo da gliadorfina, pois ela quebra os peptídeos que têm prolina na segunda posição. No primeiro passo, a DPP IV cliva o segmento de [tyr-pro] do início do peptídeo da gliadorfina. Isso deixa um peptídeo com a sequência [gln-pro-gln-pro-phe]. Neste ponto, a DPP IV age uma segunda vez para retirar o segmento [gln-pro], deixando [gln-pro-phe]. 

Neste ponto, o interessante é que, este tripeptídeo [gln-pro-phe] restante é um inibidor da própria DPP IV. 

Portanto, ao invés de ser clivado, pela terceira vez, por esta enzima, este tripeptídeo acaba inibindo a ação da DPP IV. O que acaba acontecendo é que isso resulta na inativação da DPP IV e, com isso, em uma habilidade prejudicada para quebrar mais as gluteomorfinas. No final da história, as gluteomorfinas podem crescer até níveis elevados por causa do efeito inibitório deste tripeptídeo sobre a DPP IV. (Figura)

gliadomorfina quebra

Agora, existe um aspecto muito interessante sobre a enzima DPP IV: ela não apenas catalisa as gluteomorfinas. Ela é também um regulador de muitos outros processos de peptídeos no corpo e, portanto, uma deficiência de DPP IV pode interferir com a ação desses peptídeos. Alguns relacionam-se diretamente com a digestão, incluindo o peptídeo-YY, o polipeptídeo pancreático e a Substância P. Outros peptídeos que dependem da DPP IV regulam a função imune e a resposta inflamatória, incluindo o neuropeptídio-y e as Interleucinas 1b, 2, 3, 5, 8, 10, 11 e 13 . Os níveis de DPP IV deprimidos podem levar a problemas com estes peptídeos sendo ativados e/ou desativados.

Além do autismo, outras doenças mentais estão associadas a níveis alterados de DPP IV, em alguns casos elevados e em outros deprimidos. Por exemplo, baixos níveis de DPP IV são encontrados em pessoas que sofrem de depressão maior e também em alcoólatras, incluindo alcoólatras já recuperados que foram abstinentes do álcool há algum tempo. Os níveis baixos também são comumente encontrados na doença celíaca, na artrite reumatóide, e na anorexia. Inversamente, níveis elevados de DPP IV são encontrados em pacientes com esquizofrenia.

Os fármacos bloqueadores de opiáceos como a naltrexona podem diminuir a gravidade dos sintomas de abstinência. Como a naltrexona bloqueia os efeitos dos opióides no cérebro e as gluteomorfinas se comportam como opióides para exacerbar os sintomas de abstinência, a naltrexona parece aliviar estes sintomas ao bloquear os opióides de atuarem no cérebro. E parece que minha teoria está funcionando. Claro, antes que alguém me pergunte, não, não encontrei nada ainda na literatura científica. Mas o fato é que é uma arma aliada.

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Dr. Renato Riccio

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Medicina Funcional e Integrativa com foco em Medicina do Estilo de Vida

www.drrenatoriccio.med.br
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