Sábado, 17 Junho 2017 17:05

O que dizer dos probióticos? Dinheiro gasto à toa ou essenciais? Destaque

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Olhando para a abundância (e as etiquetas de preços) dos suplementos probióticos nas prateleiras das lojas de alimentos naturais nos dias de hoje, você assumiria que deveria haver uma montanha de evidências que apoie os benefícios desses produtos - certo?

Não exatamente. Na verdade, é um panorama complicado e um pouco confuso.

Isso não quer dizer que os probióticos não tenham efeitos benéficos! Ao invés disso, tratas-se simplesmente do fato de que entendemos mal os mecanismos pelos quais esses benefícios são criados - e, quando identificamos o mecanismo, geralmente não é o que esperávamos.

Como exemplo, a maioria das pessoas (incluindo muitos médicos) assumem que os benefícios dos probióticos resultam de espécies bacterianas benéficas no suplemento que colonizam o trato gastrointestinal e alteram a composição, a longo prazo, das espécies de nosso intestino. A realidade é que a pesquisa mostrou vez após vez, que este quase nunca é o caso. [1]

Em alguns estudos, os indivíduos tratados com probióticos mostraram uma colonização transitória (3-5 dias) pelas espécies probióticas. A grande maioria dos estudos, no entanto, não relatam mudanças significativas na composição das espécies após um curso de probióticos. Há um pequeno número destes estudos que relataram alterações a longo prazo na composição das espécies nos intestinos dos indivíduos - mas estes constituem uma pequena fração de estudos.

Então, se os probióticos na verdade não estão mudando as espécies de bactérias que vivem em nossos intestinos, o que exatamente eles estão fazendo?

Há algumas maneiras pelas quais as pesquisas mostraram que suplementos probióticos para afetar nosso intestino:

1. Efeitos na função do epitélio

O epitélio é a fina camada de células que faz barreira em nossos intestinos. Esta camada - uma camada de uma única célula de espessura (na maioria dos lugares) - desempenha um papel crítico tanto na absorção de nutrientes quanto na imunidade.

Ao trabalhar corretamente, o epitélio permite que os nutrientes digeridos passem por onde eles são absorvidos pela corrente sanguínea. Alimentos não digeridos, bactérias e outras partículas grandes, no entanto, não passam e são retidos no trato gastrointestinal.

Essa função faz com que o epitélio seja a primeira camada do nosso sistema imunológico.

O glúten é bem conhecido por perturbar o epitélio, criando um "intestino vazado" através do qual bactérias e partículas de alimentos não digeridas podem passar e criar uma resposta imune inflamatória.

Felizmente, os probióticos demonstraram ter o efeito oposto, aumentando a estabilidade da junção do epitélio. [2]

Os probióticos também aumentam a secreção de anticorpos de mucina (proteínas fortemente glicosiladas que constituem os principais componentes do muco que cobre a superfície dos tecidos epiteliais) e β-defensina por células epiteliais, que funcionam para neutralizar bactérias patogênicas no intestino e evitar que elas passem para a corrente sanguínea. [3]

2. Efeitos sobre a imunidade mucosa

O revestimento do epitélio é uma camada de mucosa que também desempenha um papel crítico no sistema imunológico do nosso sistema gastrointestinal. Esta camada mucosa funciona tanto como uma barreira física quanto uma barreira bioquímica, impedindo que bactérias patogênicas atinjam o epitélio e a corrente sanguínea.

A extremidade bioquímica da função imune do muco vem do anticorpo imunoglobulina-A (IgA). Os probióticos demonstraram aumentar a secreção de IgA na camada de muco. [4]

3. Interação com Bactérias de intestino existentes

Os probióticos também demonstraram exercer um efeito nas bactérias que já colonizaram o trato gastrointestinal. Isso ocorre através de um dos dois mecanismos.

Primeiro, e mais intrigante, os probióticos demonstraram alterar a expressão genética de algumas das espécies existentes no trato gastrointestinal. Isso significa que, embora os probióticos raramente alterem a composição da espécie do trato gastrointestinal, eles mudam fundamentalmente as bactérias já estabelecidas.

Nós ainda não conhecemos as implicações completas desta descoberta, mas provavelmente, ela desempenha um papel nos efeitos benéficos mais gerais dos probióticos - como a digestão melhorada - que anteriormente não possuía uma explicação forte.

Os probióticos também demonstraram restringir o crescimento de bactérias tanto patogênicas como comensais (principalmente benéficas) pela secreção de compostos antimicrobianos.

Finalmente, os probióticos desencorajam o crescimento de bactérias patogênicas ao competir com eles pelos locais de ligação no epitélio. [5]

Limitações de conhecimento

A primeira coisa a observar aqui é o quão incompleto é nosso conhecimento sobre a ação dos probióticos em nosso sistema gastrointestinal.

Nós simplesmente não sabemos muito sobre as implicações da presença ou ausência de qualquer espécie em nosso sistema gastrointestinal. Como tal, quando os pesquisadores descobriram que os probióticos modificam a expressão genética das espécies existentes em nosso intestino, eles ficaram coçando a cabeça no que diz respeito às implicações precisas desse achado.

Outra lacuna em nosso conhecimento vem das limitações das metodologias utilizadas por cada pesquisador no campo.

Até agora, os pesquisadores só utilizaram análises fecais para determinar os efeitos da suplementação probiótica. Esta metodologia nos dá uma imagem muito boa do que está acontecendo nas partes mais baixas do nosso trato gastrointestinal, mas não nos diz muita coisa sobre o que está acontecendo nas regiões superiores (mais perto do estômago).

É muito possível que a colonização por uma espécie probiótica possa ocorrer em uma seção superior do trato gastrointestinal - mas que acaba não aparecendo em uma análise fecal porque esta espécie foi substituída pelas espécies que dominam seções inferiores do trato gastrointestinal à medida em que o alimento digerido se moveu em direção ao cólon.

Vale ressaltar aqui o quão jovem é esse campo de pesquisa. A maioria dos estudos analisados para este artigo foi realizada nos últimos 5 anos. À medida que as metodologias de pesquisa se tornem mais sofisticadas nos próximos anos, nossa compreensão de como a flora intestinal afeta nossos corpos e cérebros poderá crescer a uma taxa surpreendente.

Quais são as lições?

Apesar das limitações significativas em nossa compreensão da flora intestinal e dos probióticos, uma coisa é clara - ambos desempenham um papel crítico em vários aspectos da saúde e do bem-estar. Há evidências suficientes que demonstram benefícios na suplementação com probióticos e que não fazê-los seria tolo e/ou negligente.

A opinião prevalecente entre os pesquisadores no campo é que tomar suplementos probióticos 365 dias por ano é provavelmente desnecessário (embora nenhum se coloque contra). Alternando-se o uso de probióticos (ou seja, 4 semanas de suplementação diária seguida de duas semanas de folga) parece ser a estratégia que fornece a melhor relação custo-benefício.

Uma exceção a esta estratégia seria se você estiver saindo de um curso recente de antibióticos, caso em que suplementar com probióticos continuamente por 6 meses a um ano acelerará muito o tempo necessário para que sua flora intestinal volte a um estado saudável.[6]

Os lactobacillus e as bifidobacterias foram as espécies mais comumente estudadas, mas evidências sugerem que outros provavelmente desempenham um papel tão importante quanto.

Ao escolher um suplemento, deve-se encontrar um que seja projetado para entregar bactérias com segurança após o estômago ácido, sendo um fator importante a ser procurado. Estes são, em geral, produtos mais caros que utilizam tecnologias tais organismos ligados ao solo (SBO - soil-bound organisms) ou matrizes de inulina.

Prebióticos

É fácil ficar preso no discurso em torno de probióticos, mas é importante lembrar que os pesquisadores quase universalmente vão te dizer que o que é mais importante de você fazer para a sua saúde intestinal é comer alimentos ricos em nutrientes em que as bactérias possam crescer (referidos como Prebióticos).

As fibras solúveis (abóbora, cenouras, batatas, vegetais de raízes), fibras insolúveis (frondosas) e amidos resistentes (bananas, alcachofras de jerusalem, arroz de sushi) são os três tipos de nutrientes que passam por nossos próprios ácidos de estômago e enzimas digestivas em grande parte não digeridas, sendo assim, deixados para que nossas bactérias intestinais os consumam.

Com certeza comer uma dieta rica em cada um desses tipos de prebióticos é o passo mais importante que podemos dar para garantir uma flora intestinal saudável.

Referências:

  1. Gerritsen, J., Smidt, H., Rijkers, G. T., & de Vos, W. M. (2011). Intestinal microbiota in human health and disease: the impact of probiotics. Genes & Nutrition, 6(3), 209–240. http://doi.org/10.1007/s12263-011-0229-7
  2. Borthakur, A., Anbazhagan, A. N., Kumar, A., Raheja, G., Singh, V., Ramaswamy, K., & Dudeja, P. K. (2010). The probiotic <span class="named-content genus-species">Lactobacillus plantarum</span> counteracts TNF-α-induced downregulation of SMCT1 expression and function. American Journal of Physiology - Gastrointestinal and Liver Physiology, 299(4), G928 LP-G934. Retrieved from http://ajpgi.physiology.org/content/299/4/G928.abstract
  3. Schlee M, Harder J, Köten B, Stange EF, Wehkamp J, Fellermann K. Probiotic lactobacilli and VSL#3 induce enterocyte beta-defensin 2. Clin Exp Immunol. 2008 Mar;151(3):528-35. doi: 10.1111/j.1365-2249.2007.03587.x. Epub 2008 Jan 8. PubMed PMID: 18190603; PubMed Central PMCID: PMC2276967.
  4. Rautava S, Arvilommi H, Isolauri E. Specific probiotics in enhancing maturation of IgA responses in formula-fed infants. Pediatr Res. 2006 Aug;60(2):221-4. PubMed PMID: 16864708.
  5. Sherman PM, Johnson-Henry KC, Yeung HP, Ngo PS, Goulet J, Tompkins TA. Probiotics reduce enterohemorrhagic Escherichia coli O157:H7- and enteropathogenic E. coli O127:H6-induced changes in polarized T84 epithelial cell monolayers by reducing bacterial adhesion and cytoskeletal rearrangements. Infect Immun. 2005 Aug;73(8):5183-8. PubMed PMID: 16041036; PubMed Central PMCID: PMC1201237.
  6. Hempel S, Newberry SJ, Maher AR, Wang Z, Miles JN, Shanman R, Johnsen B, Shekelle PG. Probiotics for the prevention and treatment of antibiotic-associated diarrhea: a systematic review and meta-analysis. JAMA. 2012 May 9;307(18):1959-69. doi: 10.1001/jama.2012.3507. Review. PubMed PMID: 22570464.

 

Lido 278 vezes Última modificação em Sábado, 17 Junho 2017 18:01
Dr. Renato Riccio

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Medicina Funcional e Integrativa com foco em Medicina do Estilo de Vida

www.drrenatoriccio.med.br
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